Holocausto Brasileiro

Resenha-Holocausto-Brasileiro-Daniela-Arbex-Capa“AQUELE carro parara na linha de resguardo, desde a véspera, tinha vindo com o expresso do Rio, e estava lá, no desvio de dentro, na esplanada da estação. Não era um vagão comum de passageiros, de primeira, só que mais vistoso, todo novo. A gente reparando, notava as diferenças. Assim repartido em dois, num dos cômodos as janelas sendo de grades, feito as de cadeia, para os presos. A gente sabia que, com pouco, ele ia rodar de volta, atrelado ao expresso dai de baixo, fazendo parte da composição. Ia servir para levar duas mulheres, para longe, para sempre. O trem do sertão passava às 12h45m.”

Fragmento de “Sorôco, sua mãe, sua filha” – Guimarães Rosa

Olá, pessoal, tudo bom? Esse fragmento retrata o famoso “trem de doido”, responsável pelo transporte dos pacientes do Colônia, o maior hospício do Brasil e cenário do livro que me deixou numa baita ressaca literária. É através do livro Holocausto Brasileiro que Daniela Arbex nos conta o que foi esse hospício, e como foram tratados os seus pacientes.

Localizado em Barbacena, a cerca de 150 km de distância da capital Belo Horizonte, o Colônia foi fundado em 1903 e foi desativado em 1994. Mas foi entre os anos de 1950 e 1980 que o hospício viveu sua época mais conturbada, chegando a registrar 60 mil mortos.

Para lá eram enviados pessoas diagnosticadas com doenças mentais ou aqueles indesejados pela sociedade, como alcoólatras, prostituas, mulheres abusadas pelo seus patrões (que poderiam dar com a língua nos dentes), homossexuais, rebeldes e epiléticos. Todos vivendo em um ambiente insalubre, ausente de saneamento básico e alimentação de qualidade. Dormiam em montinhos de fenos, amontoados aos montes nos pavilhões.

Daniela utilizou testemunhos de ex-funcionários e antigos pacientes para montar sua obra. Um deles, o que mais me comoveu, foi o de Sueli Rezende. Diagnosticada com epilepsia na infância, foi levada ao Colônia pelo juizado de menores. Sua família fez algumas visitas no início da internação, mas logo a abandonou no hospício. Cresceu no Colônia sofrendo em várias sessões de choque, receitadas por conta de seu comportamento agressivo. Manteve relações sexuais com alguns pacientes, ficando grávida duas vezes. Sua primeira filha foi arrancada de seus braços dez dias após o nascimento e entregue para adoção, como várias outras crianças nascidas de internas do hospício.

Débora, como era chamada a primogênita, foi adotada por uma das funcionárias do Colônia. Em 2007, quando descobriu que era adotada e que sua mãe biológica continuava internada, mas em outro hospício, resolveu iniciar a busca pelo seu passado. Infelizmente Sueli já tinha falecido, mas sua filha não desanimou, correu em busca da história de sua mãe. Descobriu que Sueli nunca se esqueceu das filhas, até o dia de sua morte lembrava de Débora e Luzia, sua outra filha que Daniela não conseguiu localizar. Ela só ficou realmente louca após retirarem Débora de seus braços, chegou a machucar outros pacientes e até a si mesma. Sua loucura rendeu esta música, que é relembrada até hoje por aqueles que viveram os piores dias do hospício:

Ô seu Manoel, tenha compaixão
Tira nós tudo dessa prisão
Estamos todos de azulão
Lavando o pátio de pé no chão
Lá vem a boia do pessoal
Arroz cru e feijão sem sal
E mais atrás vem o macarrão
Parece cola de colar bolão
Depois vem a sobremesa
Banana podre em cima da mesa
E logo atrás vêm as funcionárias
Que são umas putas mais ordinárias.

O seu Manoel foi um dos inspetores mais linha dura do hospício. A música é o registro do sentimento de cada paciente do Colônia, nele podemos observar como eles eram tratados e como desejavam sua liberdade. No livro são descritas cenas de milhares de pessoas nuas em seus pavilhões, que bebiam água de esgoto e se alimentavam da pior forma possível.

A quantidade de pacientes mortos por más condições ou em sessões de eletrochoque era tão grande que o cemitério não conseguia mais suportar. Então os cadáveres começaram a ser vendidos a preço de banana para universidades mineiras, entre elas a Universidade Federal de Minas Gerais. Quando as instituições já estavam saturadas de corpos, eles eram queimados para que os ossos pudessem ser vendidos. O tráfico de corpos era uma das atividades mais frequentes do Colônia.

A obra foi muito bem construída, com escrita fácil e rápida de ser entendida. Possui várias imagens com legendas explicativas e destaca os vários prêmios que Daniela ganhou merecidamente. Recomendo a leitura para qualquer um que queira entender como um hospício funcionava, principalmente na época da ditadura militar. É um livro forte e exige uma boa carga psicológica, que nos faz refletir sobre como a vida pode ser negligenciada.

Minha avaliação:

A avaliação de vocês:

 

Foi difícil para mim resenhar esse livro, acho que nunca li nada tão impactante. Espero ter passado para vocês um pouco do que a história é, e quais sentimentos ela desperta em nós, leitores. Muito obrigada pela companhia.

Boa leitura!

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Isa
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Especificações Técnicas

Especificações técnicas:

ISBN: 8581301576

ISBN-13: 9788581301570

Idioma: português

Encadernação: Brochura 

Edição: 1ª

Ano de Lançamento: 2013

Número de páginas: 272

Editora: Geração

Fonte: Livraria Cultura 

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Superinteressada por história, sonha em utilizar sua futura profissão para melhorar o mundo. Apaixonada por literatura desde a infância, aprendeu com a Coleção Vagalume que o mundo pode ganhar novas cores a partir doslivros que chegam em suas mãos. Acredita também, que a educação e a cultura têm o poder de transformar o mundo.
Isa

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Superinteressada por história, sonha em utilizar sua futura profissão para melhorar o mundo. Apaixonada por literatura desde a infância, aprendeu com a Coleção Vagalume que o mundo pode ganhar novas cores a partir dos livros que chegam em suas mãos. Acredita também, que a educação e a cultura têm o poder de transformar o mundo.

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